Alice primeira parte


O ano era irrelevante, a pequena cidade onde situava o casebre também o era. O número desse casebre era 14, mas infeliz ou felizmente esse número também era irrelevante, quase insignificante. Alice, a menina que ali morava com seus pais tinha todo o seu valor. Mas seu nome, esse sim, era irrelevante.

Naquela noite todos dormiam em pleno silêncio, quebrado muitas vezes pelo tilintar da água batendo na janela e gotejando na casa daquela pobre família.

-Mãe! – Gritou Alice ao acordar assustada.

Silencio.

-Manhê! – Novamente sua voz suplicava.

Nada.

-MANHÊ! – Gastou seu último fôlego.

O silêncio naquela casa era aterrorizante, a chuva cessara, ou assim o parecia. Alice retirou a coberta que lhe cobria até as orelhas, uma coberta bonita por sinal, vermelha com belas flores amarelas que apesar de velha parecia muito simpática. Respirou fundo e abriu seus olhos com resquícios de lágrimas. 

A luz vinha dos relâmpagos e passava pela janela iluminando a cada raio, aquele pequeno quarto. Seus olhos azuis claro checaram todo o ambiente. Tudo estava em ordem, exceto o seu exemplar de Viagem ao Centro da Terra que se encontrava aberto ao chão, lera-o antes de adormecer.

Reunindo toda sua coragem sentou-se na cama e calçou seus chinelos, vermelhos como a coberta. Sua camisola azul brilhou a luz dos raios que cortavam verticalmente o horizonte. Acendeu uma vela que achou na gaveta do criado-mudo. Pegou o livro e cuidadosamente guardou-o na prateleira ao lado das cortinas da janela.

Com vela acesa, abriu lentamente a porta evitando o barulho. Mas tal tentativa era irrelevante, já que o silêncio estava sedento por sons e torceu para a porta emperrar. Emperrou. Alice puxou com mais afinco o trinco e abriu a porta num estalo, que devido ao silêncio, pareceu ensurdecedor.  Passou a porta e foi ao quarto de seus pais, sempre dormiam de porta aberta.

            O quarto era pouco maior que o da menina, uma cama de casal tomava quase todo o espaço pra si. Ali dormiam a sonos profundos os pais de Alice, Carlos e sua esposa Larissa. Larissa acordou com mau humor ao ver a menina cutucando-a com a mão livre
.
Pediu o motivo de Alice estar ali. Esta contou do pesadelo que a acordara pela terceira vez na semana. Larissa disse qualquer coisa à filha, sobre pesadelos serem histórias inventadas por crianças mal-educadas.

Levou-a ao quarto, tropeçou num livro ao chão, xingou para si mesma, pôs Alice na cama e voltou para sua cama, o cansaço do dia anterior lhe torturava. Alice adormeceu logo em seguida. Quanto tempo dormiu foi irrelevante.

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